A Vida Cristã e as Escrituras Sagradas

Marcos Granconato, em seu livro A Teologia da Vida Cristã, coloca a seguinte definição: “A vida cristã é a conduta do homem transformado pela fé em Cristo, marcada pela retidão descrita nas Escrituras Sagradas, mantida e aperfeiçoada pelo zelo pessoal através do poder do Espírito Santo, e que tem como propósito mais sublime a glória de Deus.” A beleza dessa definição encontra-se no entrelaçar das afirmações. De nada vale “a conduta do homem transformado pela fé em Cristo” sem “retidão descrita nas Escrituras Sagradas”, o que se torna inviável fora do “zelo pessoal através do poder do Espírito Santo”.

A moda brasileira para uma vida cristã saudável são experiências de emoção, os chamados “momentos especiais”. Está encrustado nas pregações dominicais a necessidade do cristão buscar experiências de emoção, choro, quebrantamento em meio a adoração. O problema é que esse tipo de encorajamento acaba gerando uma estagnação do crescimento espiritual. Se possuo “experiências” com Deus não existe a necessidade de me alimentar pois já tenho uma vida cristã saudável. É notório isso no meio de jovens e adolescentes, em meio a integrantes do louvor que tocam e vão embora, bem como também é notável que logo após suas experiências emocionais voltam a uma realidade de vida bem disforme com a de um cristão que é salvo por Cristo e deseja viver um processo de santificação, ao dar-se por satisfeito com suas experiências deixa de lado a diária sujeição a Jesus.

Outro mal causado por essa moda é falha observação e capacidade de defender a sã doutrina. John Charles Ryle foi um ferrenho crítico dessa prática na Inglaterra no séc XIX, ele observava que pessoas eram facilmente influenciadas por qualquer nova pessoa que eloquentemente se dispunha a trazer um novo, o que não é diferente nos dias de hoje. Temos Cristãos nas nossas igrejas que possuem uma fé burra, não creem por que acreditam na Bíblia, mas sim porque seu pastor os ensinou a pensar assim. Não existem mais bereanos que avaliavam tudo aquilo que o apostolo Paulo pregava (Atos 17), não existem mais cristão como Esdras que tinha a boa mão do Senhor sobre ele pois ele estudava, pregava, e praticava a lei de Deus (Esdras 7.10).

O problema é que existe também o outro lado da história, aqueles que vivem de boas formulações doutrinárias achando que estão qualificados segundo seu conhecimento. Tomás Kempis, em 1418 questionou o fato de qual é o proveito de se discutir a Santíssima trindade, se não somos humildes e desagradamos essa mesma Trindade? Vaidade de vaidades, tudo é vaidade (Ec 1.2). A palavra de Deus nos exorta a não nos atermos a vãs discussões, a vida cristã não tem como sua dominante o exercício intelectual das Escrituras.

Qualquer um dos dois extremos nos leva a parecer como uma rosa de plástico, onde sua aparência é muito boa, porém seu valor é somente estético. Mas, então, onde devemos basear a nossa vida cristã? A resposta está em sua própria definição. O equilíbrio entre a dedicação ao estudo das Sagradas Escrituras, a ausência de uma fé burra, e a capacidade de se alimentar e defender a palavra de Deus, deve ser diretamente proporcional ao desejo de buscar experiências emocionais, e momentos especiais em meio ao agir do Espírito Santo.

Vivi isso no meu final de semana no Celebrando a Vida (retiro de homens) de minha igreja. Tivemos experiências marcantes de muita emoção, mas todas elas baseadas na transformação da exposição da bíblia e no agir dependente do Espírito Santo de Deus.

Não devemos ser conhecidos por nossas experiências marcantes, e nem por nosso intelecto super desenvolvido, mas sim por nosso equilíbrio em lidar com nossa vida cristã.

 

Artigo baseado no segundo capítulo do livro “Fundamentos da Teologia da Vida Cristã” de Marcos Granconato.

Tiago Vercelino é ministro de Educação Cristã, pastor de adolescentes e QA’s na IBBR.
Escreve para o blog toda quarta-feira. 

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