Crentes, evangélicos ou cristãos?

imageMeu filho de oito anos perguntou para a minha esposa o que éramos, se “cristãos”, se “evangélicos” ou apenas “crentes”? Minha esposa como sempre deu a resposta que ele conseguiu entender claramente. Se eu fosse responder esta pergunta eu diria: “sou discípulo de Jesus de tradição protestante”. Passo a explicar o porquê:

Logo de cara explico que estes rótulos, pouco ou nada inspiram minha caminhada de fé. Mas reconheço que estas nomenclaturas e convenções ajudam (ou atrapalham) as pessoas em sua jornada espiritual.

Já há muito tempo tenho dificuldade com o termo “crente”. A primeira argumentação é puramente bíblica já que Thiago diz que até os demônios crêem em Deus. A palavra crente me remete a um grupo muito específico de seguidores de Jesus que, sinceramente ou não, valorizam mais a aparência e o estereotipo (linguajares e maneirismos) do que o coração devoto a Deus. Muitas vezes ouvi: este se converteu a “lei dos crentes”, e estavam corretos, “crente” no imaginário popular se refere a pessoas que apenas mudaram de leis, não encontraram a graça por completo, são escravos de usos e costumes. Talvez a grande maioria tenha sincera piedade, mas eu não me identifico absolutamente com os “crentes”.

Evangélico também é complicado. Lembro-me com muita alegria dos meus primeiros anos de conversão. Na minha adolescência eu me alegrava em dizer num país católico que eu era evangélico, bons tempos. Mas isso foi há quase 30 anos, o evangélico hoje é o habitante da bolha subcultural chamada “mundo gospel”. Este mundo paralelo é o das camisetas de Jesus, dos adesivos no carro “foi Deus quem me deu”, das músicas sem poesia (e as vezes nem rima) ou arte que pelo simples fato de conter a palavra Deus e adoração devem ser aturadas por todos sob pena de ser chamado de mundano. O evangélico está na televisão, artistas em fim de carreira que se converteram e agora estão lá dando testemunho de mudança de religião mas quase nunca de mudança de vida.

Se o “crente” se preocupa demais com o estereótipo e se torna legalista, o “evangélico” não valoriza o comportamento, adora as experiências e são bitolados nos seus pastores, bispos e apóstolos. Esta matéria expõe bem do que estou falando: “Mercado Bilionário da Fé avança com novos Produtos.”

Se no crente eu vejo uma sincera e pura ignorância, no evangélico eu vejo uma arrogância prepotente. O evangélico que eu conhecia nos anos 80, um povo que tomava coragem de dizer que acreditava na Bíblia e a estudava com afinco deu lugar ao evangélico genérico, que é embalado pelo comércio das gravadoras e editoras que mais se preocupam em vender do que discipular uma geração. Se alguém me pergunta se sou evangélico, prefiro dizer que não, ao ter que explicar tudo isto que estou escrevendo aqui. Triste, já que “evangélico” podia significar “aqueles que vivem pelo Evangelho de Jesus”, mas não significa, pelo menos não mais.

Também já não me sinto mais confortável em simplesmente ser chamado de “Cristão”. Jesus não tinha este termo em mente, este apelido surgiu na igreja de Antioquia de maneira jocosa e maravilhosa. Eram conhecidos como pequenos cristos. Não me incomodo em ser chamado de cristão, de forma alguma, apenas quero destacar que hoje em dia este rótulo diz muito pouco sobre meu relacionamento com Deus. Ser cristão hoje é ser basicamente ocidental, e ser ocidental é ser consumista e superficial.

Sei que o termo nasceu no oriente e hoje são muitas as igrejas de cristãos que estão do lado de lá do planeta, contudo o cristianismo que saiu de Antioquia e passou pela Europa, chegou aos Estados Unidos e se espalhou por todo o mundo sofreu muitas mutações no caminho. Ser cristão hoje, como já disse, é ser ocidental, o exemplo básico é notar que o evangelismo na África ainda é feito com hinários que nada tem a ver com a cultura daqueles países, ou com músicas americanas ou inglesas traduzidas. É só um exemplo de como o cristianismo pode ser simplesmente uma franquia religiosa do que uma espiritualidade autentica.

Então finalmente posso dizer que sou “discípulo de Cristo”, identificado com a tradição protestante. Simplesmente porque isto me remete ao Mestre Jesus, que de maneira maravilhosa mudou a minha historia e me ensina todos os dias a viver uma vida abundante ainda que nos desertos da alma. Ser discípulo é voltar no tempo e me sujar com a poeira das sandalhas do Galileu Deus. Numa experiência simples e profunda de adoração a Cristo e de processo de crescimento à sua imagem e semelhança.

Ainda acrescento “de tradição protestante” pois me remete a linha teológica com qual me identifico. Em um mundo de tantas vertentes, ser protestante é valorizar as Escrituras e dizer que é ela a minha regra de fé e prática.

Na minha humilde opinião, ser discípulo de Jesus de Nazaré transcende o rótulo de crente, a comovisão evangélica e até o cristianismo cultural e vai até o quarto da oração e da experiência do toque do Messias.

Espero ter ajudado!